terça-feira, outubro 23, 2018

Eu não sei tudo

Hoje estava a apresentar uma ideia num grupo de trabalho e sai-me com uma expressão que me é tão natural como autêntica e genuína: “depois acrescentamos uns pormenores importantes sobre este assunto que todos vocês sabem bem melhor do que eu”. Entredentes mas bem perceptível ouvi alguém corrigir-me - sim, eu ouvi: “Ninguém sabe mais do que tu sobre isto!”. Entendo a intenção e aceito a correção. Segue a mesma linha de uma outra que me foi feita há uns tempos quando, numa das milhares de vezes em que me auto-censuro, voz amiga me chamou à atenção: “não te desprezes, tu não és isso que dizes de ti mesma”. Pois não, sei eu! Mas, ao que parece, a minha certeza não é evidente se não me vestir com a arrogância e convicção que dita a postura característica de tantos medríocres que por aí pululam. Desculpem o tom, mas custa-me sempre aceitar a forma como hoje em dia o talento e profissionalismo são muitas vezes ocultados pelo fogo-de-artíficio de quem se enche de certezas e verdades absolutas para criar falsas imagens de sucesso. Eu não acredito nisso. Cheguei a esta idade a acreditar no Pai Natal mas, para mim, o debate de ideias, a mente aberta às dúvidas, a capacidade de adaptação a novas formas de abordagem dos temas, a ausência de padrões rígidos de comportamento ou formatos de procedimento e a certeza de que todos os outros terão sempre algo de útil e muito válido a acrescentar são a minha postura perante a vida. Assim sendo, não me sinto colocada em causa quando me questiono, sinto-me em pé de igualdade. Não me diminuo, mostro-me sempre disponível para aprender e saber mais. E, lamento, do meu ponto de vista, esta é a forma mais sábia de se estar perante a vida. Porque eu não tenho a convição de saber tudo, mas também não tenho medo de perguntar. Seja a quem for.

3 comentários:

Inês disse...

Já não sei o que é certo. Acho que, na maior parte das vezes, sou como tu e sofro quase sempre da síndrome do impostor, mas a verdade é que cada vez mais tenho visto subir na vida pessoas que têm mais confiança em si do que capacidades e que levam o marketing pessoal muito a sério.

vanita disse...

Não conhecia o síndrome do impostor. Fui pesquisar e não penso que seja bem o meu caso. Eu tendo a acreditar que, se tenho talento, as pessoas certas saberão destrinçá-lo para lá do que eu disser em contrário. E aí choco-me com o que dizes a seguir. A vida tem-me mostrado como, de facto, quem invente em “falso” marketing pessoal é quem mais sobe. Eu tenho a convicção de que isso acontece apenas porque vivemos numa mediocracia que se autopromove, quer por identificação quer por medo de exposição caso se dêem os papéis “errados” às pessoas competentes. Isto é bem pior que um síndrome, é mesmo uma patologia séria :)

Pedro disse...

Olá Vânia,
tinha aqui este post aberto no navegador para comentar há uma eternidade, mas é só para dizer que estou muito de acordo. Quantas "imagens falsas de sucesso" já me passaram pela frente... ainda temos muito que aprender com Sócrates