quinta-feira, setembro 19, 2013

"Dentro do Deserto", de José Luís Peixoto


 

Mais do que um segredo, este livro é uma mistura de sentimentos. Há tanto para dizer que é difícil organizar o pensamento e estruturar uma opinião concertada, com alguma utilidade. Este não é um livro normal, é uma obra de não-ficção, quase mascarada de reportagem mas impregnada do cunho pessoal daquele que é um dos escritores portugueses mais reconhecidos da actualidade. Começa aqui a confusão: José Luís Peixoto não é jornalista nem pretende ser. Está tudo muito bem, não se desse o facto de este ser um livro que aborda uma realidade a que muito poucos têm acesso: a necessidade de informação credível e fundamentada é uma constante, um imperativo. Infelizmente, são demasiadas as situações em que o autor não está à altura do que se propõe. E não está por sua culpa mas porque, além de limitado quer em termos materiais quer de movimentos, não tem - e isso é evidente - a formação necessária para dar ao leitor o que ele precisa enquanto o acompanha nesta viagem turística à Coreia do Norte. 


 


Como escritor que é, José Luís Peixoto leva-nos com ele numa viagem de pouco mais de 200 páginas - impressas em folhas com uma gramagem bem superior ao usual - ao que o governo norte-coreano decidiu que podia ser mostrado a um grupo de cerca de 20 curiosos estrangeiros. Sem liberdade de movimentos, sem telemóvel, impedido de tirar fotografias, o autor descreve o que vê, mistura com o que sente e conta-nos o que viveu durante aqueles dias. E é uma surpresa descobrir que ainda se vive daquela forma algures no planeta Terra, dói adivinhar o que se esconde por detrás das fachadas apresentadas aos visitantes. Nenhuma dúvida quanto a isto. Neste momento, em pleno século XXI, existe um país onde o pior pesadelo de George Orwell, recriado em 1984, é uma realidade. Uma realidade. É chocante descobri-lo, é importante dar-lhe voz. 


 


A mistura de sentimentos que o livro provoca surge aqui: durante a leitura de "Dentro do Deserto" a nossa identidade passa a ser a de José Luís Peixoto. Temos fome quando ele tem fome, distraímo-nos quando ele está aborrecido, deixamos de tomar atenção quando o assunto não o cativa. Também dançamos com ele, provamos comida que não queremos de todo comer, sofremos com as saudades dos seus filhos. Isto é mérito do escritor, que brinca com as palavras quando as notas que tirou durante a viagem lhe permitem essa divagação. E eis que estamos perante uma das notas menos positivas: é fácil perceber quando temos o bloco de notas de José Luís Peixoto nas mãos. É ainda mais fácil distinguir os momentos que são escritos de memória e quase que se sente o quanto ela nos escapa por entre os dedos. Se até estes sentimentos são uma boa experiência enquanto leitor? Claro que sim. Mas resultam em frustração quanto àquele que é um dos propósitos do livro: relatar uma realidade acessível a um número limitado de pessoas. O desinteresse do autor resulta em ausência de informação e, por consequência, em perda para o leitor. 


 


É uma viagem que vale a pena fazer, é uma certeza. Mas fica o gosto amargo de se querer mais, de se esperar mais. Ainda assim, resta a convicção de que não saímos iguais deste livro. Não se pode ficar indiferente.

10 comentários:

Patrícia disse...

Olá,
Confesso que tenho algum receio em ler este livro. Agora, depois de ler a tua opinião, esse receio sai reforçado. Será suficiente ler o que lhe foi permitido escrever sabendo que o mais importante é mesmo o que não foi visto, vivido, escrito?

boa sorte na nova casa, sou daquelas leitoras que, apesar de raramente comentar, leio tudo o que por aqui se escreve :)

vanita disse...

Olá Patrícia!

Obrigada pelo comentário, o primeiro nesta casa :)

Vale a pena ler o livro. Mesmo com todos os contras que aponto, há uma realidade que convém saber que existe e que se depreende do que o autor não pode contar.

Um beijinho e obrigada por me leres :)

Cláudia disse...

Pretendo ler o livro este mês. Ansiosa.

Carolina disse...

Acabaste de chegar e já estás em destaque! Parabéns!

É bom ter-te por aqui :)

vanita disse...

Pois foi! Nem queria acreditar quando vi. Foram mesmo queridos.

Beijinhos :)

C. disse...

ainda não tive tempo de ler o post.
só passei para dizer que a casinha está catita :D

vanita disse...

Obrigada :)))

C. disse...

Deste novo título ao livro :P (A psicologia justificaria essa tua associação da Coreia ao Deserto)
Confesso que ainda não estou convencida em relação ao JLP. Parece-me apenas razoável, acho que consegue expor captar as experiências e transcrevê-las e fazer com que o leitor, que mais por não estar familiarizado com o que tem pela frente, se enamore ou deslumbre. Claro que esta minha ideia é muito baseada no "Livro", li mais dois, no entanto não li o que dizem ser a sua melhor obra "Nenhum Ohar". Quanto a este "Dentro do Segredo" estou curiosa e se me aparecer à frente não o rejeito.

vanita disse...

Inacreditável. Mais ainda porque pareces ter sido a única a reparar no erro. E sim, não tenho dúvida de que a psicologia explica esta associação de ideias. Gosto de te ter por aqui :)

Cristina disse...

Eu também reparei, mas deixei o meu comentário (em forma de pergunta, porque fiquei na dúvida se não seria propositado) no outro blog... :-)
De qualquer forma, está na minha mesinha de cabeceira e será o próximo ;-)