sábado, agosto 01, 2009

How can I believe?

  • A primeira vez foi completamente inesperada. Esperava uma amiga à saída da escola, recostada a um canteiro quando as estrangeiras que tinham andado por ali todo o dia se chegaram a mim. "Mas o que querem estas russas cabeludas, feias como tudo, de mim?", pensei com os meus botões. Ainda não tinha acabado de formular a pergunta e já estava de queixo caído. A primeira dói sempre mais. "Olá, sei que és muito amiga do R. É só para te avisar que ele é meu namorado!". Também demorei a perceber que não, a russa cabeluda não estava enganada. Estava a falar do R., o meu namorado. O namorado que ia lá a casa, viajava comigo e com os meus pais e com quem estava há quase um ano. Foi a primeira.
  • Já estava na faculdade quando a nunca-assumida-ex-do-meu-namorado faz questão que eu a ouvisse falar ao telefone. Ainda se falava em telefones públicos, fixos nas paredes. Bem me quis ir embora, mas as minhas amigas não deixaram. Elas próprias estavam curiosas pela mensagem que a menina queria passar. "Às seis no Cais do Sodré! Não te atrases". Ok, eu tinha combinado às sete com o rapaz que esta menina nunca esqueceu, que por acaso era meu namorado. Liguei a pedir para vir mais cedo, para vir às seis. Não podia. Só às seis e meia. Arrastada pelas minhas amigas fui de autocarro da Junqueira ao Cais do Sodré. Cheguei mesmo a tempo de os ver a cumprimentar-se. Sim, ela ia encontrar-se com ele. Ele ia encontrar-se com ela.
  • Estava a começar a estagiar quando me encantei por aquele que foi meu amigo muito antes de se tornar namorado. Fazíamos tudo juntos, não nos largávamos e quando começámos a namorar parecia que tínhamos uma relação muito mais longa do que era. Até ao dia em que ele decidiu embarcar com amigos do trabalho - era um jovem empresário - numa viagem a Marrocos. Ficou distante, não disse nada quando o avião aterrou, calou-se nos dias em que lá esteve. Falou comigo quase uma semana depois, quando voltou. Desdramatizou o meu chilique, que estava a ser exagerada, que não se passava nada. Mas tinha medo de me mostrar as fotografias da viagem, deu-me os presentes a conta-gotas e uns dias depois confessou-me que tinha conhecido uma miúda na viagem, que tinha dito que não tinha namorada e que tudo isso mexeu com ele. Acabámos. E ele fez tudo, mas mesmo tudo, para voltar para mim. Conseguiu, mas a M. estava sempre presente. Até porque ele não deixava de a ver, de se encontrar com ela. Sempre por razões profissionais claro. E para mais, ela ia viver para S. Francisco, tinha namorado, ia casar. Não havia drama. Eu quis ser uma namorada de mente aberta: "Se é tão importante para ti, vai ao jantar de despedida dela". Às seis da manhã recebi um telefonema. Tinham curtido. Mesmo assim, ele conseguiu recuperar-me. Até pedidos de casamento escreveu na calçada, frente ao edifício onde eu trabalhava. Um dia emprestou-me o portátil dele para me ajudar. Estava a escrever a tese de Licenciatura e assim era mais prático. Nesse dia descobri os e-mails. Estava a viver uma mentira há meses. A M. existiu muito mais do que eu podia imaginar. Mas era passado. E ainda namorámos uns anos, sempre com a lembrança da traição a atraiçoar cada passo que dávamos.
  • No ano passado cai nas garras de um homem que não sabe o que quer. Na versão que eu vivi, ele deixou a namorada com quem morava porque se tinha apaixonado por mim. [Não, nunca houve qualquer aproximação romântica durante esse outro namoro. Sou pela teoria de não fazer aos outros o que não gosto que me façam a mim.] Deixou o país onde morava porque queria estar perto de mim. Ao mesmo tempo, trocava mensagens comigo e com a mulher que estava a deixar, dizendo que nos amava. Às duas! Não sei até onde chegam os contornos deste jogo duplo. Não sei se desapareceu para voltar para trás, se porque encontrou outro caminho. Sei que me mentiu. Que lhe mentiu. Sei que me roubou a vontade de voltar a acreditar. Não nele, mas no resto do mundo. E ninguém tem o direito de nos roubar assim o chão.
Expus-me demais? Talvez! Mas não posso ser feliz com tanto disto cá dentro.

19 comentários:

Filipa disse...

Fiquei de boca aberta a pensar o que faria eu se tivesse sido comigo. Dou comigo a pensar se não estarei numa situação dessas, se um dia não será comigo. Já estive de um dos lados dessas histórias, talvez tenha magoado mas sei que me magoaram, o meu coração conseguiu fechar as feridas apesar de às vezes parecerem não estar bem curadas. Talvez precise de mais betadine... Um beijo*

Debor@h disse...

Na vida não podemos ter certeza absoluta de nada. Sei que é difícil confiar nas pessoas depois de tantas mentiras e traições.Confesso que já passei por esse tipo de sofrimento e, sendo como sou, é difícil ganhar minha confiança novamente, porém temos que dar uma nova chance a nós. Nem todos são mentirosos e traiçoeiros. Eu também vivo com uma mentira (nem chegou a ser uam traição pelo que eu sei), mas a pulga atrás da orelha permanece ali e isso me corrói por dentro. Espero vencer esse mostro e poder amar sem medos. Desejo à você o que eu quero para mim, um amor verdadeiro e honesto. Beijos

Sofia disse...

Percebo-te bem... acredita.

Imaculada disse...

É não desistir, é não fraquejar, é não lhes dar ainda mais importância!!!! É dizer: eu vou ser feliz, nem que seja à centésima tentativa (pelo meio viveste, que é o que interessa)!. Acredito em ti.

papoila disse...

A traição custa muito!
Para mim não dá para voltar a confiar, já tentei mas não consegui.
E o pior é que na relação seguinte a ferida abre-se quando menos se espera e lá estamos nós cheias de duvidas...
Não percas a esperança, porque há-de haver UM que quer viver exactamente como tu:sem mentiras.
Boa sorte.
bjinhos

Ana disse...

É preciso muita coragem para nos expormos, mas geralmente ganhamos com isso porque deito-se algo cá para fora. Há um alívio agradável :)
Beijinhos e espero que tenhas mais sorte no futuro

Suspiro do Norte disse...

Nada pior que a dor de alguém expor o nosso coração à dor.. Essa sim, é uma exposição demasiada e dolorosa.

Parabéns pela forma como te exprimiste e pelo grito de coragem..

Xi apertadinho cá do norte

Poetic GIRL - BELA disse...

Sabes faz muito bem desabafar, seja de que forma fôr, não considero que te tenhas exposto, apenas uma forma de desabafar o que te estava a consumir por dentro... mas sabes, não desistas, quando menos esperares a tua felicidade estará ao virar da esquina... beijos

Anónimo disse...

O que mais temes não tem poder nenhum - é o teu medo que tem poder. - Oprah Winfrey

Não deixes de acreditar.

Um abraço grande
Nanda

IandU disse...

Vanita,
fiquei de boca aberta e suspirei no final.
Parabéns por tamanha coragem. Mereces mesmo muito ser feliz.

Beijinhos

Síndrome dos Trinta disse...

Quando observamos por fora é sempre mais fácil tecer comentários, mas quando vivemos tudo isto é muito complicado gerir emoções, certezas e incertezas. Não há fórmulas para evitar mas há certamente a força e vontade de continuar a procurar. Viver, experimentar, conhecer, confiar dentro do razoável e deixar evoluir.

Sofizita disse...

Digo-te aquilo que costumo dizer a mim própria: a falta de sorte, o escolhermos ou sermos escolhidas pelo homem errado há-de acabar. Acredita! Eu acredito! Bem... tenho dias! :)

pepita chocolate disse...

A vida abre-nos sulcos no coração difíceis de fechar. Principalmente quando são traições. De onde só nasce sofrimento e ferida no amor próprio. A vontade de amar fica adiada. Porque existem sulcos cravados demasiado fundos, de onde só viste nascer ervas daninhas- a desconfiança e o descrédito.

Mas acredita que alguém haverá de sulcar o teu coração com as mais belas flores do amor. A confiança nascerá. A felicidade permanecerá. E a traição será só uma nuvem negra que um dia pairou no teu jardim.

Mereces ser feliz. Que o arco -íris comece a aparecer na tua vida.

Beijinho!

Vanessa Cruz disse...

Já percebi! Percebi o que me disseste várias vezes no fim-de-semana. ;)

emanuel.eduardo disse...

É interessante ler este post. É como que uma confissão pecaminosa de um segredo. É como ler por entre o que não sabes fazer da tua vida. Sobretudo, é autêntico (e se não for, uma honesta salva de palmas).
Também é interessante ver que apenas tens feedback feminino neste post.
Mas, como apenas sou um passageiro que gosta de encontrar coisas interessantes pelo caminho, deixa-me que diga apenas uma coisa, de todo interessante, nem tudo é como parece... Mas verdade seja dita que barco afundado não navega mais.
Decide o que queres, com quem queres e como queres, depois é interessante ver como as coisas se desenrolam...

Vanita disse...

Não tenho palavras para agradecer os vossos comentários. Afinal de contas, já me expus tanto...

Obrigada!

Ana disse...

:) A vida muda, o mundo gira e a sorte um dia está do nosso lado. Um dia a tua vai chegar.

Beijinho.

Maria disse...

Não sei se estou numa situação assim.. Mas temo que sim.
Custa tanto ultrapassá-la...

Beijinho.

shiuuuu disse...

e quando compram uma casa com a ex...sem tu sabres...