quarta-feira, junho 03, 2009

O número perfeito

A 3 de Junho de 2002 uma menina-mulher de 23 anos, cheia de convicções e vontade de vencer, entrou pela porta de uma empresa ali mesmo ao lado da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. Eram três da tarde, Portugal tinha acabado de fazer uma triste figura no Mundial da Coreia mas, mal passei a porta de entrada, fingi que nada disso me afectava. Era uma profissional e estava ali para trabalhar, objectivamente. Foi assim o momento em que me entreguei à empresa onde ainda estou, a empresa que me viu crescer, como pessoa, como profissional, como membro de uma classe cada vez menos idolatrada, cada vez mais maltratada. Entretanto tudo mudou. As instalações da empresa trocaram de morada seis meses depois de eu lá ter chegado e o lugar que passei a ocupar desde então foi agora também alterado, há cerca de dois meses. O namorado ficou pelo caminho. Melhor, alguns namorados ficaram pelo caminho. Houve tempo para flirts, para zangas, para amizades verdadeiras, para lidar com notícias dolorosas a nível pessoal. Muitas, demasiadas mesmo. Desde que entrei nesta empresa perdi as minhas avós, perdi três tias, perdi uma prima, perdi um ex-namorado, perdi dois amigos... perdi muito. Mas também ganhei. Nada que substitua cada uma destas dores, mas descobri que a vida também é feita do braço que está lá quando precisamos mesmo dele. Aquele que aparece quando chegamos ao fundo do poço e, se não houver alguém a esticar-nos a mão, não saímos mesmo de lá*. A mim, que sempre fui uma pessoa forte, decidida, convicta do que quero. Aprendi que as convicções também nos traem. Engoli sapos do tamanho da Torre Eiffell, assisti a traições que não imaginei serem possíveis num mundo de pessoas se cruzam todos os dias e perdi a inocência em relação ao mundo do trabalho. Não basta ser. Na maior parte das vezes, mais vale cair em graça do que ser engraçado. E há dias em que isso dói demais. Mas também há dias em que somos agraciados com o resultado do nosso esforço, em que o nosso trabalho se sobrepõe a nós próprios e nos deixa felizes. Afinal, era isto que tinha na cabeça naquele dia 3 de Junho. Realizar-me profissionalmente. Faz hoje sete anos. Dizem que é um número mítico. Também dizem que representa o fim de um ciclo. Quanto a mim, só espero que traga ainda mais do melhor que me deu até agora.

*um desses "braços" faz hoje 30 anos. Parabéns, amiga!

6 comentários:

Anónimo disse...

Oh Vanita! É verdade! temos um aniversário em comum! Por isso Parabéns a ti também, porque aguentaste muita coisa que eu não consegui aguentar, por ainda acreditares, por te manteres fiel aos teus pricípios, por seres uma óptima profissional (mesmo que muita gente não queira ver isso porque não dá jeito reconhecer que tu és boa no que fazes), por seres tu :D Beijinho grande!!! JB

Bailarina disse...

Só poderias ter sorte nesse trabalho... Ao dia 3 e a fazer 7 aninhos, é realmente muita sorte!! Quanto ao resto, crescer é bom, mas por vezs doloroso...
Bjinho*

Inês disse...

Nós também fazemos as coisas boas que nos acontecem, por isso parte do mérito é teu :)
Que venham muitos anos a fazer aquilo que gostas :)

pfa disse...

Belo percurso. Pena que tenhas perdido tantas pessoas nestes 7 anos. Mas outras terão surgido e muitas mais surgirão. Estamos os dois nesta altura de transição da vida "os trinta". Somos jovens agora jovens adultos, mais crescidos. Mas com muitos desafios pela frente. Espero que faças o que gostas não 7 mas pelo menos mais 70 anos.

Poupinhas disse...

Então, claro que te vai trazer mais e melhor :)
Estou certa que sim :)
Besitos*

Miguel disse...

Isso tudo é... a vida.
Ainda bem que a compreendes. Ajuda bastante a passar por lá.