quarta-feira, maio 25, 2022

Sobre a licença menstrual

Uma em cada dez mulheres sofre de endometriose.


Vou isolar esta frase para que possam aperceber-se bem do alcance desta estatística. Em todo o mundo, uma em cada dez mulheres sofre de endometriose, uma doença crónica que se traduz em dores incapacitantes associadas ao período menstrual. Uma doença sem investigação clínica suficiente para que se conheça sequer a razão da sua origem. Existem três teorias - pouquíssimas e muito recentes - ainda não comprovadas. Uma doença ainda desconhecida por grande parte da comunidade médica em exercício no atendimento aos doentes. Uma doença praticamente sem acompanhamento clínico na segurança social, existindo apenas algum apoio privado - caro e à beira do princípio do negócio comercial dada a ausência de respostas por parte do Estado. As mulheres que sofrem de endometriose vivem dias de dor intensa muitas vezes comparada à dor de parto, dores que demoram entre sete a dez anos a serem diagnosticadas, quando são, e para as quais não existe tratamento. Sim, a endometriose é um doença que apenas encontra algum alívio na(s) intervenção(ões) cirúrgica(s) - já referi a questão dos privados, alguns deles sem comparticipação de seguros (estamos a falar de pessoas desesperadas sem alternativa). A endometriose afeta uma em dez mulheres. Mulheres que não têm sequer um reconhecimento de doença crónica que lhes conceda algum alívio na cruz (muitas vezes diária) que carregam. A licença menstrual não é para as pessoas que menstruam. A licença menstrual é para as pessoas que precisam dela. Sim, a licença levanta questões de igualdade salarial que podem deixar a progressão profissional das mulheres em causa. Apenas e só se considerarmos que a licença menstrual é um direito universal. Não, nem todas as pessoas que menstruam têm direito a licença. Apenas aquelas que precisam dela. Como qualquer pessoa doente.

2 comentários:

helena disse...

A mim tinha-me dado muito jeito a licença. Tive endometriose, só a operação pôs fim a anos de sofrimento. Pela minha parte confirmo que ainda é uma doença desconhecida para muitos médicos, o meu ginecologista conhecia-me há quase 20 anos e perante as minhas queixas, disse-me:"isso é psicológico, as dores menstruais não provocam isso". Só durante a cirurgia é que se aperceberam que era endometriose, pois o diagnóstico era cancro nos ovários.

Espero que quem precise da licença a consiga obter.

Tri disse...

Concordo plenamente até porque sempre assisti toda vida, através da minha irmã, como tal doença é incapacitante.
Não sei é se esta foi a melhor forma de começarmos a "deitar a mão ao assunto".
Como em todas estas questões, haverá o aproveitamento, porque nem todas precisamos de baixa, claramente que não, mas "se podemos ter direito aos dias porque não aproveitar", é o pensamento de muita gente.
E não sei até de que forma todo o trabalho que se tem feito em direção à igualdade, não dá um passinho atrás.