quarta-feira, abril 27, 2022

A terra onde eu fui já não é

A demência e a velhice levaram o padre que, na minha memória, ainda guarda a inteligência travessa que tecia as astutas homilias paroquianas que eu ouvia  nos meus anos de praticante. Foi-se, deixou-nos.


Também o venerável diretor da escola já se despediu deste mundo. Deixou nome a fazer história, mas quem guarda a memória dos seus excelsos cumprimentos ao entrar no portão do externato? Já só nós nos lembramos.


A infelicidade e a doença levaram o primeiro namorado, muito depois de o ter sido. Quando morre o primeiro amor, leva consigo uma parte do que fomos. E já foi há tanto tempo.


Hoje morreu o mais carismático professor da escola, aquele que nunca me deu aulas e o único que desejei ter conhecido mais de perto. Do tanto que fez, ficam alicerces para muito mais. Partiu, mas não se foi.


O passado é um lugar lá atrás que julgamos que existe mas onde não conseguimos nunca chegar. Só reparamos nele quando desaparece. A terra onde eu fui já não é.


 


 

1 comentário:

s o s disse...

parabens.
Post interessante.
Tanto (interessante) que nos faz pensar como contrariar ou confirmar a afirmaçao. Tarefa no minimo dificil. Nao estou a conseguir.
Ainda assim acho que o passado existe e que lá chegaremos noutra fase da vida. Tambem porque, afinal, ontem já é passado.