quarta-feira, abril 22, 2020

A minha quarentena

Finalmente ganhei coragem e fiz as contas: estou há 48 dias em casa, com um intervalo de cinco dias pelo meio. Estou a dar em maluca.


Eu sou uma pessoa caseira: adoro o sossego de estar em casa e não ter de sair. Não me é, por isso, difícil aceitar o desafio que o novo coronavirus nos está a impor. E, na primeira semana de isolamento social, quando praticamente ninguém estava ainda nessa condição, apesar de ser uma obrigação estranha - até porque tivemos de cancelar uma festa de aniversário e, naquela altura, ainda parecia uma medida excessiva -, nessa primeira semana, tudo parecia novo e até reconfortante. O corpo de qualquer trabalhador pede esse descanso. Ficar a trabalhar a partir de casa, não perder tempo com as deslocações, descobrir as maravilhas do teletrabalho (também as há, ou havia...). Ainda tudo era novo e não se pensava sequer que se tinha de ter tantos cuidados nos pedidos de entrega ao domicílio. Sabíamos lá, éramos uns meninos.


Depois disso, regressei à rotina e, apesar do clima de medo e dos cuidados acrescidos - estava convencida que, no minuto em que pusesse o pé novamente fora de casa é que iria realmente ficar infectada - ainda nada era como agora. Ainda se conseguia brincar com a quarentena. Um dia antes de voltar ao trabalho descobri inúmeras paródias musicais que se faziam lá fora - o coronavirus ainda era um fenómeno estrangeiro - e encantei-me por uma dessas cantigas parvas. Ultimamente surge em loop na minha cabeça quando menos espero.


Mas o medo já tinha feito ninho no meu coração. Durante essa semana não abri uma única porta de comboio sem proteger as mãos com um lenço de papel e apliquei o mesmo nível de cuidado e atenção ao momento em que passava a tira magnética do passe nos canais de entrada e saída das estações. Fiz viagens inteiras em pé sem me segurar a nenhum corrimão, apenas sustenta com a força dos pés e do equilíbrio quando havia uma guinada mais afoita por parte dos motoristas. Ao fim de três dias, no que foi um grito de Ipiranga, passei a levar o carro para o trabalho. É uma decisão e tanto porque, com a hora de ponta, é impossível chegar a tempo de picar o ponto. Surpresa, não só cheguei a horas como fiz as viagens em tempo record. Quando tomei esta decisão as horas de ponta já tinha desaparecido. Aconteceu tudo nessa semana.


Nessa sexta-feira despedi-me dos meus colegas com um “até ao verão”. Era demasiado tempo mas o medo já se tinha instalado em mim e comecei, ainda que inconscientemente, a perceber que isto não se iria resolver num simples estalar de dedos. Durante esses cinco dias despachei todo o trabalho que não consigo fazer em teletrabalho. E isso fi-lo de forma consciente. A experiência da semana de isolamento que já trazia fez-me ser prudente nesse sentido e quis salvaguardar qualquer eventualidade. Nessa noite regressei a casa e, desde então, não tornei a sair. Passam 48 dias e, por mais que me sinta a pessoa caseira que falei lá em cima, já não aguento a minha casa, o confinamento e, sobretudo - essa grande diferença em relação à primeira semana de isolamento -, a sensação de estranheza de que o mundo lá fora não é igual e não o voltaremos a ver tal como era. É angustiante e até sufocante quando penso nisso. Felizmente, não o faço com intensidade todos os dias, obrigo-me a isso.


Na verdade, cá dentro, temos vivido uma quarentena tranquila e apaziguadora. O pior é tudo o resto: as notícias, o futuro, as ameaças de layoff, as preocupações com a família e amigos. Vivemos no fio da navalha, combatemos um inimigo invisível e não fazemos ideia de quando nem como isto irá terminar. Sabemos apenas que o retorno será difícil, demorado e caótico e também temos consciência de que os nossos comportamentos e hábitos sociais vão transformar-se de forma radical. Será que alguma vez voltarão a ser como eram? E é nesse momento que o mundo nos parece mais pequenino e claustrofóbico: queremos de volta o contacto humano descomplexado e sem desconfiança, as risadas e os abraços, as festas de família e os mergulhos na praia. Queremos sorrir sem máscaras e não sabemos quando é que o poderemos fazer novamente. 48 dias + 5 de intervalo é apenas a conta inicial desta quarentena. Vamos fazê-la como uma maratona. A meta pode ser a vacina ou a imunidade, o que chegar primeiro. Mas vamos chegar lá.

2 comentários:

O ultimo fecha a porta disse...

a tua última frase resume o meu estado de espírito: vamos lá chegar :)

sandra sofia disse...

Entendo o teu ponto de vista e entendo as tuas lamentações,mas eu cá estou muito bem em casa,já antes da pandemia do coronavírus,eu estava habituada a estar em casa,pois não me posso empregar porque recebo uma pensão de invalidez devido à minha doença crónica que não sendo grave,mesmo assim,é uma doença,acima de tudo,tem a ver com nervos à flor da pele,mas não vale a pena falar nisso,temos que encarar as coisas de forma positiva e pensarmos que as coisas vão melhorar o mais rapidamente possível,