quarta-feira, janeiro 02, 2019

2019 - é desta que começamos a olhar em frente?

A 1 de janeiro de 2008 aderi ao Facebook. Ainda era uma rede social de ecos e silêncios, escrevia-se em inglês e passavam vários meses sem que se fizesse sequer login. Na berra estava o Hi5 e os blogs, discutia-se o “futuro”: o microblogging das redes sociais emergentes como o Twitter ia aniquilar e abafar o espaço ocupado pelos grandes posts. Isto, na imprensa especializada, em ninchos de interessados. Era conversa que passava despercebida ao comum dos mortais.


Por essa altura, jornais e revistas portugueses sabiam que existia uma crise anunciada mas ainda não a sentiam na pele. As redações emagreciam aos poucos, não era perceptível o que ainda por aí vinha. A presença no digital era praticamente nula e bastante rudimentar. Os movimentos de massa no online eram - e sei do que falo - totalmente desconhecidos por parte das cabeças pensantes nas administrações e chefias de muitos grupos de comunicação social. A não presença no digital era um orgulho, uma teimosia e uma certeza de que não abdicavam. Os caminhos são complicados e, mesmo a esta distância, é difícil distinguir qual teria sido a melhor postura perante aquilo que, na altura, eu gostava de chamar de “mudança de paradigma”. A presença online era requerida e exigida, soubemos disso quando vimos ascender bloggers e influencers ao estatuto de mega estrelas com capacidade de influenciar as gerações para onde ninguém olha mas que nunca páram de crescer - no prazo de cinco anos, são sempre os mais novos que determinam escolhas e tendências de consumo que as marcas não podem ignorar. O jornalismo, como infelizmente vem sendo habitual, preferiu esconder-se debaixo da peneira e ignorou todos os sinais. A sua ausência no online abriu espaço para que outros - que não se regem pelos mesmos códigos de conduta e ética - emergissem e, voilá: cá estamos, em 2019, num tempo que corrobora o conceito de “fake news”, aquele que descredibiliza o quarto poder.


E é neste contexto, num contexto em que a batalha é recuperar a credibilidade perdida, que se assiste ao “corre-trás” dos meios de comunicação social, que ainda não se ajustaram à realidade digital e mantêm registos do século passado no exercício da sua actividade. Numa altura em que não há qualquer margem para erros, em que a comunicação social têm de fazer valer a sua notoriedade com o mais rigoroso jornalismo de sempre, assistimos ao apelo desesperado pelo clickbait e à procura pela galinha dos ovos de ouro no digital, com destaque para o maior tiro nos pés de sempre, que é o jornalismo copy paste. Não é preciso ter uma bola de cristal para perceber que o online está minado. Basta perder dois minutos a ler comentários a qualquer notícia publicada nas redes sociais: há sempre alguém que saca das “falsas notícias” para lançar a dúvida e chutar tudo para canto. Isto combate-se com inteligência.


Mais de dez anos depois daquele dia em que aderi ao Facebook, acredito que agora o caminho é outro e que se conquista longe dos murais e das notifcações constantes. Em 2019, os grandes jornais portugueses têm o dever de lembrar o seu percurso aos leitores e de se impôr como fontes credíveis e fiáveis, longe da espuma dos dias. Como sempre, é uma carta fechada. É como os anos novos: nunca sabemos como vão terminar. 

5 comentários:

Pedro disse...

Bom dia,
Lembrei-me deste post depois da polémica de ontem com o "Você na TV"... é preocupante perceber (não é nada de novo, mas pronto) que o rigor jornalístico e a visão do mundo que nos oferece estão a ser minados a partir do interior das próprias empresas de comunicação social. Já nem é preciso esperar por um elemento exterior como Trump.

vanita disse...

Bom dia, Pedro. Tens razão. Mesmo sem ser preciso procurar muito, eis aqui um exemplo muito concreto de quão importantes são os nossos passos e de como não devemos deixar isto ao desbarato. A comunicação social tem um poder preponderante e não devia deixar-se afectar por estas condicionantes tão apelativas que são as audiências e os números. Vamos ver no que tudo isto vai dar. Não se augura muito de bom...

vanita disse...

Nem de propósito: http://www.jornalistas.eu/?n=10356&fbclid=IwAR0z-dcg7Iy-2NSKcNHDUtZEv2ZjWRhAeI0IjGsyNgtVBAEQnA0oR9ccBb8

Patrícia disse...

(Ando com os posts muito atrasados, sorry)
Gostei de ler, achei um texto muito lúcido.
Sabes o que me assusta mais? É que quando vejo algo de que realmente percebo a ser discutido/noticiado nos jornais e revistas fico assustada porque deixo de ter qualquer fé nos OCS.
Nunca sei se os jornalistas/jornais envolvidos são apenas mal preparados ou se pretendem mesmo alinhar nos interesses envolvidos.
Às vezes, para os leigos como eu, torna-se muito difícil discernir onde está a informação pertinente e de fontes fiáveis. Ainda por cima tenho a mania de não "emprenhar pelos ouvidos" e não é porque muita gente no Twitter diz algo que se torna verdade para mim...

vanita disse...

Sinceramente, não penso que seja por mal. As redações estão “esvaziadas”: são poucos, miseravelmente pagos, sem horários e muitas exigências e, cada vez mais, com pouca experiência e falta de capacidade de resposta à altura do que se lhes é exigido quer pelos leitores/telespectadores/ouvintes quer pelas administrações dos órgãos cada vez menos isentos de interesses económicos e políticos onde trabalham. É um melting pot perigoso que resulta em falta de preparação, como dizes, mas em que o jornalista e o repórter que dá a cara raramente é o culpado.